






Pra quem nunca teve essa experiência de fazer as malas e se mudar pra outro país, é realmente muito estranho saber que, em alguns instantes, sua vida se modificará completamente. Lembro-me de olhar pela janela, quando já avistava a sonhada terrinha catalã, e ter esse sentimento quase palpável. Realmente, em alguns instantes, minha vida (e eu mesma) mudaríamos completamente.
Depois de 10 horas de voo, duas de sono e um café da manhã com presunto (não como carne), desembarco em Paris com quatro malas de mão (fora as outras duas enormes malas que despachei). Sem ninguém dizer onde devo ir, vejo uma placa (em Francês) que acho que é a imigração, e vou até lá. Digo de cara um “hello” para ele não arriscar um francês comigo (já chegavam as aeromoças…). O funcionário, muito simpático, começa a perguntar - em INGLÊS - por que não quero ficar na França, o que vou fazer em Barcelona… e eu lá, parecendo uma ambulante, cheia de sacolass, testando todo o meu inglês. Diante de uma cena tão estranha, ele me pergunta se eu queria pegar o ônibus que leva ao lugar de embarque. E sabe o que digo? Não, vou a pé! hahahaha Quem já passou por aquele aeroporto deve saber que ele é imenso! Me perco, claro, mas sou salva pelas aulas de inglês e encontro - do outro lado do mega aeroporto -claro! - a fila do embarque. Enfim, passo as malas, a jaqueta e os sapatos (!!) pela máquina e vou para mais uma fila de embarque. Quando consigo chegar, sou barrada pela moça que me diz, em francês, que o nome do meu ticket não é o mesmo do passaporte. Como assim?? - penso eu. Olho no ticket e tem lá: RENATA alguma coisa. Com o corpo completamente moído, nem consigo entrar em pânico. Mas uma boa alma imprime outro cartão pra mim e -enfim- entro no avião. Essa viagem realmente foi tensa… Sabia que, em 1h30 estaria em um lugar completamente desconhecido e totalmente sozinha.
O avião aterrissa e sei que agora é de verdade. Pego minhas malas e, quando estou saindo do aeroporto uma moça me diz: “¿De donde vienes?” Eu, firme: “Brasil” e ela: “Abre a mala!” hahaha! (Vou poupa-los dos detalhes de que a mala não queria abrir, e quando consegui, no tranco, voou roupas brasileiras por todo o lado.) Saí do aeroporto (e dei de cara com um amigo que, fofo, foi me buscar. Talvez eu não estivesse tão sozinha como pensei…) e aí sim, vi que realmente estava em Barcelona.
Não posso dizer que o começo foi fácil. Mudar de país é mesmo uma experiência radical, mas alguns fatores da minha chegada tornaram isso um pouco mais… complicado, talvez. Cheguei na casa do amigo que me hospedaria no inicio dessa empreitada e não tinha água - mal sabia que esse era o começo da ‘URUCUBACA’.
O primeiro dia é só estranho. Como não tinha dormido, nem tomado banho, e estava com o fuso horário errado, parecia que eu estava sonhando. Passei o dia todo com o amigo que me resgatou no aeroporto. Andamos como uns doidos e no fim do dia fomos a uma palestra no IED, onde eu ia estudar.
Volto pra casa (não sem antes me perder por duas horas, sendo que a indicação do colega era bem simples: Siga essa rua, que vai dar na sua casa. Hã?? ) e ainda não tem água, apenas umas panelas que os amigos (fofos) encheram pra mim. Pego uma panela, uma caneca e tomo um banho… de caneca!!! Só pra constar, o primeiro banho espanhol da minha vida foi… sim, de caneca!
Acordo no dia seguinte e ainda não tem água (nem internet). Os amigos começam a achar estranho o fato de que no dia em que cheguei tudo na casa começa quebrar. Eles dizem que é a ‘URUCUBACA’ da Sabrina. Se não fosse triste ficar sem banho e sem internet, ainda mais quando se acaba de mudar de país, seria muito engraçado. Passo o dia atrás de apartamento (minha hospedagem duraria apenas três semanas). Em Barcelona é comum as pessoas alugarem quartos dentro das casas para pessoas estranhas (isso no Brasil é impensável). Ando pela cidade e ela é realmente deslumbrante. Nunca tinha ido a uma cidade em que todo o canto é bonito.
Ainda sem banho (parece piada, né?), sem internet e agora também sem telefone, nem tv a cabo, começo a aceitar cada vez mais o meu novo apelido (dado pelos novos amigos) “URUCA”.
É meu 3º dia em terras estrangeiras e já estou muito além do que poderia aguentar. Sem banho, sem falar com ninguém, sem achar lugar pra ficar, sem ter tempo de ver o meu sonhado Gaudí, entro em casa um pouco mais aflita do que gostaria e descubro que (enfim) TEM ÁGUA!! (a internet e o telefone já era pedir demais.) TOMO MEU PRIMEIRO BANHO NA ESPANHA. Parece um milagre… sabe aquela “inhaca” (como se escreve isso??) do avião? Saiu hoje… três dias depois de ter chegado aqui.
Limpa, consigo me acalmar e realmente começo a mudar de país.
(texto retirado das aventuras de Sabrina em 2006, ano que viveu em Barcelona)